14.5.17

1 poema de Victor Casaus

Agora Aprendo de Novo
Como o assassino que regressa sempre ao local do crime
ou o tigre ao lugar
de sua penúltima fome
já vens aqui agora
para aprender de novo
                            enquanto comprovas
que ainda está aberto nessa estranha
(mas também fria) neve do lençol
o molde apagado de onde saiu
         (há quantas horas?)
         (há quantos séculos?)
aquela mulher que se alçava junto a ti
buscando o ciclo com uma insólita vocação de palma
e que agora deve andar (oh palma sozinha) pelo mundo
sobre uma neve que já não é este lençol
numa paisagem donde onde não há
estou quase certo   outra palma como ela
Já se foi
e já vens
a ver com as próprias mãos
o tamanho interminável e amoroso desta desordem
a escutar com tuas unhas
o ruído que ainda faz seu pêlo contra a janela
a sentir nas vozes que ainda preenchem este quarto
aquele cheiro que hoje te perseguiu
tantas horas pelo mundo
a descobrir dentro de  sua luminosa penumbra
estes olhos que te miram ainda
         daqui mesmo
e que te ensinaram outra vez
que o assassino regressa sempre ao lugar do crime
e o tigre ao local de sua penúltima fome
Já vistes como estão as coisas
a almofada     o telefone   a luz ainda está
         acesa
Vistes que a vida continua provocando
cataclismos e amores e fábulas
                                      tão certas
como esse molde morno onde repouso
minha cabeça de assassino amoroso
e sinto nascer o sonho de minha próxima fome